TO pelo mundo

por Rodrigo Kélvin

- Introdução

Entender a trajetória e a história do Teatro do Oprimido é também entender a trajetória e história de Augusto Boal, grande teatrólogo responsável por difundir pelo mundo uma forma de teatro criada para aqueles que sofriam e/ou sofrem opressões e não possuem lugar de fala em suas comunidades.

Boal, carioca, engenheiro químico, pós-graduado pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque, abandona sua carreira científica pela arte teatral em meados nos anos 1950. Nesta viagem aos EUA para sua pós-graduação, Boal se matriculou em um curso de dramaturgia ministrado por John Gassner, também na Universidade de Columbia, e retornou ao Brasil dirigindo o grupo de Teatro Arena de São Paulo em 1956.

Nesta época o Brasil passava por diversos regimes e crises políticas, tornando o teatro uma forma muito importante de se expressar politicamente. Antes de 1964 ainda era possível ter certa liberdade de criação e de expressão até ocorrer o golpe militar de João Gourlart (Jango). Após o golpe todo cuidado era necessário ainda sendo possível fazer teatro, mas de uma maneira mais reprimida. Porém, a partir de 1968, houve a instalação do Ato Institucional Nº 5 e o reforço do golpe militar de 1964 e da censura, e toda a liberdade de expressão e criação foi negada e cassada.

Em 1971, Augusto Boal foi cassado e preso, sendo mantido na solitária por um mês e quase dois meses no presídio Tiradentes. Após ser libertado, Boal foi viver em Buenos Aires com sua esposa de nacionalidade argentina, Cecília Boal. Nestes anos de exílio, Boal sentiu-se excluído e solitário em um país em que não era o seu e, todas essas cicatrizes, se tornaram importantes características de seu grande trabalho de pesquisa teatral. Como relata Desireé dos Reis dos Santos "a ruptura por conta do afastamento, o impedimento de voltar ao Brasil e continuar sua trajetória dentro do grupo teatral no qual atuava desde os anos 1950 (Teatro Arena), as tentativas de manter sua identidade, a busca por oportunidades e as reflexões sobre o uso do teatro como novo tipo de ferramenta política, são marcas do exílio de Boal".

- Desenvolvimento do T.O. fora do Brasil

Em 1973, Boal foi convidado para participar do Projeto ALFIN, uma Campanha de Alfabetização Integral na cidade de Chaclacayo, próxima a capital Lima, Peru. O projeto atraía pessoas de diversas comunidades pobres espalhadas por todo o país. Os princípios pedagógicos de Paulo Freire³ foram de grande ajuda para Boal, fazendo com que o seu trabalho fosse voltado PELOS e não PARA os oprimidos. Nasce então o Teatro-Imagem, técnica onde o uso de palavras torna-se proibido, ampliando os espaços de desbloqueio pessoal e linguagens corporais.

Esta viagem ao Peru foi de extrema importância para todo o trabalho de pesquisa de Boal, pois foi neste período que surgiram seus dois termos essenciais: o Teatro do Oprimido e o Teatro-Fórum. O primeiro surgiu como título de umas de suas primeiras obras neste projeto e manteve-se como principal nomenclatura de sua técnica teatral. Já o segundo, Boal explica em uma entrevista para Michael Taussig e Richard Schechner, na Universidade de Nova Iorque em 1989 que, em uma apresentação de cena, uma mulher constantemente dizia o que a protagonista deveria fazer naquele momento de opressão, porém o grupo estava sendo incapaz de realizar o que ela desejava. Boal então disse a ela: "Venha para o palco e nos mostre o que fazer, pois não conseguimos interpretar seus pensamentos". Fazendo isto, Boal percebeu a grande diferença que existia entre as próprias interpretações e as palavras e ações daquela mulher. Ali nasceu o Teatro-Fórum, elemento que se tornou primordial para a execução de formas e soluções de opressões. Boal diz, ainda na entrevista, que "às vezes fazemos o Fórum, onde o que importa não é o elemento teatral - não é mostrar algo para a audiência - mas preparar para ações reais, o que um grupo em particular fará amanhã".

Com todas as crises políticas acontecendo pela América-Latina, Portugal tornou-se um lugar revolucionário e cheio de esperanças, atraindo Boal a mudar-se para lá em 1976. Neste período entre 1976 e 1978, Boal lança o livro mais importante de sua obra: o "Teatro do Oprimido" que fora lançado originalmente em francês na capital Paris, e teve sua primeira versão em português em 1977, editada pela Civilização Brasileira, em Portugal. Logo em seguida, foi convidado por Émile Copfermann, diretor das Éditions Masperto, a lecionar durante um ano na Universidade de Sorbonne em Paris. Em 1979, Boal funda o Centro do Teatro do Oprimido na capital francesa e continua seus estudos e pesquisas que havia iniciado na América-Latina.

Logo de início, Boal começa a trabalhar com franceses muito pobres, com grupos antidrogas e anti-racistas e também com pessoas comuns que frequentavam o centro. Ali, Boal começou a lidar com diferentes tipos de opressão com os quais não estava acostumado. Diferente da América-Latina onde a opressão estava muito conectada com a repressão dos regimes ditatoriais, na Europa os oprimidos tinham mais tempo de se preocuparem consigo mesmo e com problemas como a solidão, incomunicabilidade, vazio, etc. O Teatro do Oprimido tornou-se ali muito mais psicológico e Boal começou a usar técnicas ligadas à psicoterapia com esses grupos, trazendo também essa nova técnica ao Brasil, com resultados satisfatórios e eficazes, quando retorna ao Brasil em 1986.

De acordo com Antônia Pereira Bezerra "curiosamente, na América Latina, apesar da repercussão e militância de Boal, sua prática é extremamente escassa se comparada às práticas ocorridas na Europa e na América no Norte". Ao retornar ao Brasil, em 1986, Boal fundou o Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro, que é o principal centro brasileiro de atuação das técnicas de Boal. No país existem outros grupos pequenos que trabalham com as técnicas e alguns pesquisadores que aplicam os jogos de Boal em oficinas e workshops. Porém, a atuação do Teatro do Oprimido e, mais especialmente, do Teatro-Fórum, é muito mais executada fora do Brasil.

- T.O. em prática em outros países

Atualmente o Teatro do Oprimido é usado por algumas comunidades, dentro do Brasil e também fora, para discutir e tentar solucionar alguns problemas sociais. Na cidade de Chaclacayo, no Peru, onde em 1973 Boal desenvolveu o Teatro do Oprimido e o Teatro-Fórum, as técnicas de Boal são usadas por um grupo militante LGBT, para discutirem sobre o preconceito familiar e social para os integrantes desta comunidade. Em 2011 foi dada uma oficina na cidade, organizada com a ajuda de Nuria Frígola, atriz e diretora peruana, e a partir de então o grupo tem usado do Teatro-Fórum para ações e intervenções urbanas com temas tão relevantes como o preconceito que os membros LGBT sofrem.

E são em lugares de extrema opressão, repressão e exclusão que as técnicas teatrais de Boal melhor se encaixam e trazem resultados visíveis para todos os envolvidos. Em Portugal existe um bairro chamado Horta do Faro, que se encontra na cidade de Faro, capital do Distrito de Faro ao sul do país. O bairro surgiu como bairro de emergência temporário nos anos de 1970. Construído na periferia da cidade junto a uma zona industrial, o bairro fora idealizado para receber portugueses forçados a retornar após a independência das colônias portuguesas na África. Porém as habitações acabaram sendo ocupadas por famílias de ciganos e, por não haver muitas manutenções, aumento de agregados e sazonalidade de trabalhos, as condições familiares foram se deteriorando e os casos de pobreza, falta de segurança e problemas habitacionais foram causando uma forte exclusão social de seus habitantes.

Em 1998 foi criado um Centro Comunitário Horta da Areia que visava sanar os diversos problemas sociais da comunidade, trabalhando como mediador institucional e tentando"providenciar serviços de bem-estar social, apoiando os habitantes a nível das suas necessidades básicas de saúde e providenciando apoio em assuntos burocráticos", como relatam Vânia Martins e Emílio Lucio-Villegas. O Centro também atuava na solução de problemas étnicos e as leis ciganas que causavam grandes problemas devido ao grande preconceito ligado a estes.

O Teatro do Oprimido surgiu na comunidade em 2010, sendo iniciativa do Núcleo de Faro da Cruz Vermelha Portuguesa como um projeto coordenado que acabou por ter continuidade devido à resposta positiva recebida pelos jovens do bairro. A imersão das técnicas de Augusto Boal nesta comunidade foram importantes para contornar algumas lacunas e problemas que haviam entre os habitantes que tornavam a comunidade excluída socialmente e, consequente, fechada em si mesma, que antes haviam sido notadas pelos técnicos do Centro Comunitário.

As técnicas do Teatro do Oprimido foram de extrema importância para contribuir com uma coesão grupal, compreender a percepção face à vida dos integrantes, observar uma aquisição de novas competências e proporcionar diversas novas experiências, através de apresentações teatrais, principalmente entre os jovens do bairro.

Vânia Martis e Emílio Lucio-Villegas dizem que "para os jovens, a atividade também permitiu uma outra forma de lidar com as emoções e problemas. Os participantes veem no T.O. uma forma de mostrar os seus interesses e preocupações, permitindo-lhes trabalhar a um nível diferente. Entendem a atividade como um veículo para falar e mostrar os seus problemas e preocupações".

- Referências Bibliográficas

TAUSSIG, M; SCHERCHNER, R. Boal in Brazil, France, The USA: An Interview with Augusto Boal. The MIT Press, Vol. 34, Nº 3, 1990, pp 50-65. (tradução própria)

REIS SANTOS, D. Novos Horizontes: A tragetória de Augusto Boal nos anos 1970.

PEREIRA BEZERRA, A. O teatro do Oprimido e outros diálogos possíveis. V ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. Faculdade de Comunicação/UFBa, Salavdor-Bahia, 2009.

ZANETTI, A. De Nova Iorque ao Teatro de Arena de São Paulo: Alguns encontros e desencontros de Augusto Boal com o teatro de Bertolt Brecht. Pitágoras 500, Nº 10, volume 2, 2016, pp 30-40.

MARTINS, V; LUCIO-VILLEGAS, E. Teatro do Oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro Horta da Areia em Faro. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2014, pp 57-75.

S/A. Multiplicación del T.O. em Chaclacayo - Echando andar las semillitas del T.O. em Perú: La experiencia em la ciudade de Chaclacayo em Peru com chicos gays. www.toenperu.blogspot.com (acessado dia 14/11/2016 20:06) (tradução própria)

S/A. O Teatro do Oprimido e Augusto Boal. www.pstv.org.br/o-teatro-do-oprimido-e-augusto-boal/ (acessado dia 16/11/2017 18:30)

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