O OPRIMIDO
POR IGOR RODRIGUES
" Todos aqueles a quem se impõem o silêncio e de quem se retira o direito a existência plena". Nas palavras de Boal, estes são os oprimidos. Quem está livre do silêncio imposto? quem possui sua existência plena? Quem é o oprimido e quem é o opressor?
As relações entre opressores e oprimidos podem ser esdrúxulas e berrantes como sutis e complexas ao variar dos contextos ou vistas de diferentes pontos, fugindo de maniqueísmos em relações rasas entre bom e mal.
Um mesmo homem pode ser oprimido em uma instancia e opressor noutra.
Um mesmo ato de opressão pode ser considerada ato comum em uma cultura e criminoso noutra.
A normalização de uma opressão em uma cultura pode fazer com que o oprimido sequer se reconheça como tal.
Mas uma opressão sempre será uma opressão, reconhecida como ou não. E é para libertar os oprimidos o teatro de Boal. Parafraseando Jesus:
E o teatro vós libertará.
Senhoras e senhores, comecemos a nossa sessão sobre os que são mastigados e cuspidos com a nossa primeira pauta:
OPRIMIDO NA CABEÇA
Ao se pensar em opressão em países como o Brasil, a desigualdade social logo desponta na mente. Poder ter e não ter, comprar isso e não comprar aquilo, viver assim e não como eles vivem, ser tratado assim e não como eles são. Em uma primeira visão os impedimentos econômicos por motivos óbvios, escancaram... Mas em uma olhada mais calma e sútil, vemos as consequências da condição de pobreza afetar não apenas a condição material de pobreza, indo além:
CONDIÇÃO DE POBREZA PSICOLÓGICA, SER OU NÃO SER, O CASO DA EMPREGADA E DA MULHER:
O espetáculo "Marias do Brasil", realizado em um festival em 1999 pelo teatro do oprimido, contava com 13 empregadas domésticas onde todas se chamavam Maria. Boal narra em seu livro O Teatro como Arte Marcial, a história de uma das 13 empregadas que encontrou chorando. A mulher que havia chorado afirmara a Boal que pela primeira vez na vida se olhou no espelho e viu uma mulher. As condições de trabalho como empregada doméstica não apenas contava com um pequeno salário, mas requeria que a mulher se portasse submissa, andando encolhida pelos cantos como se fosse invisível, apenas respondendo: sim senhor e sim senhora, assim desabafava a mulher em seu camarim para Boal.
Na peça, a empregada doméstica foi tratada pela primeira vez não como empregada doméstica, a produção perguntava o que achava da iluminação e se preocupava com a sua opinião, Maria era vista e ouvida pela família a qual trabalhava que estava na platéia, pela primeira vez em mais de 10 anos de trabalho.
Pela primeira vez Maria disse a Boal ter se olhado no espelho e visto uma mulher.
Os oprimidos pela desigualdade social, os operários, motoristas e cobradores de ônibus, todos os pobres e miseráveis que sobrevivem em condições de servilismo. O servilismo transcende a quantidade de dinheiro na sua carteira, a condição de vida desumana transcende os trapos que vestem ou o lugar feio e perigoso que moram.
O servilismo transcende o material e invade a mente do oprimido, ele não apenas ganha menos, ele se sente menos.
DITADURA AO OPRIMIDO
A cura gay, pedidos de retorno da intervenção militar, a massa tradicional da familia brasileira que clama em monologo a volta dos valores tradicionais morais e cristãos, usando o termo cristão irresponsavelmente e ofensivamente no que toca o Cristo; além de reverter a palavra: moral, usando-a para defender tudo aquilo que é imoral, desrespeitoso e preconceituoso... em poucas palavras, os conhecidos unilaterais valores burgueses.
Assim como com a mulher Maria que estava condicionada a se ver não como mulher, mas como empregada doméstica, se porta a opressão e aqueles que a defendem, buscando condicionar o absurdo opressivo como natural.
"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão. "
Huxley, Aldous