Boal e Brecht

 Por: Gabriel Morgado  


Buscando mostrar as influências marxistas que os dois sofreram e suas formas de analisar e aplicar. Brecht sempre buscou não se acomodar e estar em constante renovação e não ficar preso a nenhuma forma paralisante. Levando em conta o método brechtiano ele influenciou muito o Teatro do Oprimido por ser uma resposta a questões da atualidade a partir da lógica deste.


Este trecho tentará estabelecer essas similaridades entre os dois, fazendo ponte metodológicas, entretanto não cronológica.


Um dos métodos aplicados é o Teatro de Arena, Boal aprofunda a experiência com influências de Brecht e radicaliza o Efeito Distanciamento, criando assim o sistema de Coringamento, em que os atores se revezam em todos os personagens, o que é um começo do que seria o Teatro do Oprimido.


Outro ponto de convergência é não mostrar o produto pronto, e sim mostrar os meios de produção. Brecht cita a importância da democratização dos meios de produção teatral pra mudar as "engrenagens".


Essa conexão também está presente no trabalho de metáfora que Brecht empreendeu. Suas fábulas e situações não realistas faziam com que se retirasse o foco diretamente da realidade a ser abordada, mostrando, contudo, sua essência de forma mais profunda, de maneira quase universal.


Boal dizia:


Então é a coisa, mas como uma opinião sobre a coisa, não é a coisa como ela é, uma reprodução, mas uma recriação, uma transcrição, uma metáfora. Teatro é metáfora. Temos que desenvolver metáforas para melhor entender o mundo e como agir sobre ele. (Boal, 2009)

Brecht se preocupava com o público dos espetáculos, que se limitava cada vez mais aos setores privilegiados e alienados. Essa crise provocou nele a possibilidade de buscar um público mais popular, que Brecht chamava de mais "autêntico". Buscava assim construir práticas e teorias que dessem conta do entendimento das contradições visando à transformação social.


Ao buscar o ator e o não ator - "todos podem fazer teatro até mesmo os atores" -, Boal radicaliza essa busca de Brecht. Boal dizia que não fazia Teatro, do grego theatron:


(...) deixa de ser o lugar onde se assiste espetáculo e se transforma em arena onde espectadores e atores, assumidos como artistas e cidadãos, fabricam um espetáculo que pulsa em permanente movimento, como na vida: praxis-tron. Fazemos práxis-tron, não thea-tron. (BOAL, 2009)


Marx, Brecht e Boal entendem que o ser humano se afirma não somente como pensador, mas também através da práxis, sendo prático e pensante.

Boal concordava com Brecht em vários pontos.

Brecht era marxista: por isto para ele uma peça de teatro não deve terminar em repouso, em equilíbrio. Deve, pelo contrário, mostrar por que caminhos se desequilibra a sociedade e para onde caminha, e como apressar sua transição. (BOAL, 1991)


Mas também demarcava diferenças.


Brecht propõe uma Poética em que o espectador delega poderes ao personagem para que este atue em seu lugar, mas se reserve o direito de pensar por si mesmo, muitas vezes em oposição ao personagem. Produz-se uma "conscientização". O que a Poética do Oprimido propõe é a própria ação! O espectador não delega poderes ao personagem para que atue nem para que pense em seu lugar: ao contrário, ele mesmo assume um papel protagônico, transforma a ação dramática inicialmente proposta, ensaia soluções possíveis, debate projetos modificadores: em resumo, o espectador ensaia, preparando- se para a ação real. Por isso, eu creio que o teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente pode ser um excelente "ensaio" da revolução. (BOAL, 1991)


Brecht tentou o mesmo, mas, a meu ver, ficou na metade do caminho. O que é insuficiente em Brecht é a falta de ação do espectador. Seu teatro é catártico, pois não basta que o espectador pense: é necessário que ele aja, acione, realize, faça, atue. O erro de Brecht foi não perceber o caráter indissolúvel do ethos e da diánoia, ação e pensamento - ele propõe dissociar e mesmo contrapor o pensamento do espectador ao pensamento do personagem, mas a ação dramática continua independente do espectador, que se mantém na condição de espectador. (BOAL, 1980)


Um ponto fundamental é o debate tão atual da democratização dos meios de produção. Benjamin, parceiro de Brecht no artigo "Autor como produtor", diz o mesmo que Boal sobre os artistas.


Seu trabalho não visa nunca à fabricação exclusiva de produtos, mas sempre, ao mesmo tempo, a dos meios de produção.


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