Augusto BOAL

"Que cada um diga o que fez, a que veio e por que ficou. E que cada um tenha a coragem de, não sabendo por que permanece, retirar-se."
BOAL.
A história do maior teatrólogo brasileiro.
Por Laura Zanetti.
1-Penha
Augusto Pinto Boal, , nascido no bairro Penha, Rio de Janeiro no dia 16 de março de 1931, logo seu signo era: peixes. Filho de dois portugueses, José Augusto Boal e Albertina Pinto Boal, seu pai foi exilado do seu pais em 1914 por se opor e se recusar a apoiar o envolvimento de Portugal com a Primeira Guerra Mundial, em 1925 José retorna para Portugal para se casar com Albertina no dia 10 de outubro de 1925 e traz ela junto de volta ao Brasil . Augusto nasceu um ano após o inicio da Era Vargas, O Presidente Getúlio Vargas assumiu o poder pela primeira vez em 1930 no governo provisório. Quando criança seu pai era dono de uma padaria junto com seus irmãos,a Padaria Leopoldina, Augusto trabalhava la desde os 11, sua família também criava animais diversos, e Augusto tinha grande afeto por esses animais, diz ainda que um desse, um bode que apelidou de Chibuco foi seu primeiro ator, e fez dele um diretor, enquanto o dirigia em brincadeiras. Aos 10 anos Boal já expressava seu interesse por teatro e apresentava pequenos shows a sua família na sala de jantar, inspirados nos fascículos semanais, e desde essa época participava como diretor de seus irmãos e primos, nas historias haviam muitos personagens, assim, cada um representava muitos papeis, o que mais tarde no TO seria conhecido como Sistema Coringa. Escreveu suas primeiras peças na maquina de costura Singer de sua mãe como mesa, usando tinta nanquim. A inocência e abordagem que ele tinha naquela época se estendeu para muito do que ele utilizou depois na composição de seu teatro, os personagens naquela época não pertenciam a uma pessoa especifica, e era possível trocar de personagem no decorrer do show, característica presente na estética do teatro de boal. Suas primeiras experiências com dramaturgia, incluem textos que ele reescrevia caso não gostasse, assim acontece no Teatro do Oprimido, o publico é capaz de mudar a historia se desejar. Ia a praia no verão com sua família e relata que na época, poucas ruas tinham saneamento básico em Penha e o lixo era despejado perto do mar. Aos 15 anos saiu da Escola Santa Teresa e foi para o Colégio Brasileiro de São Cristóvão, onde conheceu Renata, aos 16 anos.
3-New York
1952, sem saber quase nada de inglês, viaja aos Estados Unidos para estudar na Columbia University, seguindo uma vontade de estudar teatro com John Gassner, crítico dramático, historiador e produtor artístico. Houve um grande choque cultural, e Boal entrou em um empasse, ele relata que ia dormir querendo voltar para o Brasil e começar o Teatro Artístico, e acordava com grande desejo de estudar teatro,havia muita solidão. Seus cursos na University seriam: Shakespeare, Drama Moderno, Direção, Teatro Grego e Playwriting com Gassner, e é claro cuso de Química, pelo seu pai e pelo direito a uma mesada autorizada pelo Brasil apenas para cientistas no exterior. Para melhorar seu inglês, lia jornais, ia ao cinemas, passava o dia ouvindo o rádio e falava sozinho. Conheceu Langston Hughes, famoso poeta negro, para entregar uma carta de Abdias, seu amigo e ator, assim começou a frequentar mesas redondas no Harlem a convite de Langston. Gassner conseguiu que ele fosse admitido em sessões de Actor's Studio, la começou a apreciar grandiosamente o trabalho do ator, e diz que seus maiores espetáculos como no Arena, foram os que o ator era o centro. Começou a escrever para o Correio Paulistano, como correspondente amador, foi convidado a participar de um grupo de dramaturgos "writer's group" no Brooklyn, assim se acostumou e entusiasmou com o aprendizado e experiências que estava tendo, o ano acaba e ele termina com êxito suas matérias de teatro. Decidiu permanecer mais um ano, iria trabalhar e receber o apoio de seu pai, trabalhou nas ferias como ascensorista no Chelsea Hotel, apertava botões , depois passou a ser bus-boy, retirava pratos sujos e colocava os limpos, 50 dólares por semana. Conheceu Meg que também trabalhava lá, ela e o rock trouxeram um gostinho de revolta contra a sociedade. O seu segundo ano seguiu objetivos específicos, montaram peças do Writer's Group, ambas escritas po Boal, " The House Across The Street" e "The Horse And The Saint", o elenco era formado pelos dramaturgos do grupo e o diretor o autor da peça, Boal começa a dirigir, entrou na Broadway como diretor e autor. Ao se despedir da peça, também se despediu de Nova Iorque em julho de 1955.
5-Censura
"O golpe de 64 foi grande negociação; para alguns, grande negócio."
31 de março de 1964, reunidos entre amigos esperando a decisão entre generais e governadores, locutor faz o pronunciamento,golpe.A primeira medida da ditadura foi cultural, proibidos os Centros Populares de Cultura. O Arena foi abandonado por semanas, meses. Quem, alguma vez, ja tivesse dito coisa que pudesse ser aparentada a pensamento assemelhado a esquerda, era preso. Perseguidos de outros estados não eram conhecidos por policiais estaduais, dessa forma mudar de estado era a solução, Boal passou semanas em Poços de Caldas, depois foi com seus cunhados para Itaipava, e depois para casa de sua mãe no Rio. Perseguidos voltavam, perdido o medo, Boal queria teatro em resposta á violência do golpe. "O processo" de Kafka, a história da peça se assemelhava muito com o que se passou no 1º de abril de 64, K acorda de manhã com dois policiais em seu quarto que vieram intima-lo: esta sendo acusado por alguém (não se sabe quem), de alguma coisa (não se sabe o que), e sera julgado (não se sabe quando), por um juiz (não se sabe qual), em um tribunal (não se sabe onde), k termina sentenciado à morte. O elenco convidado por Augusto achava a ideia ótima, porém não fariam. "O Processo" se tornou "Opinião" , enquanto esse texto se organizava, Boal estreou "Tartufo" no dia 2 de setembro de 64. Opinião foi o primeiro protesto teatral coerente, coletivo, contra a desumana ditadura. Uma das cantoras do espetáculo adoeceu e indicou que em seu lugar assumisse Maria Bethânia, que foi para o Rio de Janeiro com seu irmão Caetano Veloso. 1965 "Arena conta zumbi", quem contava a história era o Arena, não iriam dialogar com o povo, eram classe média, nesse espetáculo foi criado o Sistema Curinga para que nenhum personagem fosse associado a nenhum ator, e o Curinga interrompia o show para dar significados escondidos, começando o diálogo com a platéia como o Teatro do Oprimido. Montaram também "O Inspetor Geral", durante O Inspetor, Augusto foi convidado para dirigir em Buenos Aires, Teatro IFT, dirigiu "O melhor juiz" e depois "A Mandrágora", voltou de Buenos Aires com uma esposa, Cecília Thumim, e um filho, Fabián Silbert. Fábian tinha um ano e meio quando conheu Augusto. Em 1966 grupos armados começaram a se estruturar, a luta armada era prolongamento natural dos encontros políticos, a população mostrava calorosa rebeldia, a ditadura entrou então no segundo golpe, censura, Boal relata desde pequeno odiar censura, "Pra mim, não haviam censores bons e maus: só ruins, péssimos e os piores!". 1968, ano dos estudantes, clímax da luta pela liberdade de expressão, a partir desse ano, com o Ato nº5, ecuridão. Boal escreve um texto, 65 páginas de 80 foram cesuradas, 1 de agosto de 1968, a estréia proibida, artistas de São Paulo decretaram greve geral nos teatros e foram se juntar a eles, "A Feira" seria representada sem alvará, desrespeitando a censura, cercaram teatros para impedir as apresentações, censura falhada começaram as agressões. Augusto foi convidado a visitar Cuba, embarque dia 14 de dezembro de 1968, um dia depois da promulgação do quinto ato, embarcou para Paris, depois à Roma, Praga, Shannon, na Irlanda, Hálifax, no Canadá e destino final Havana, o trajeto de mais de 30 horas para ver Fidel na Praça da Revolução. De volta ao Brasil, Arena foi convidado para uma temporada de Zumbi em Nova York, agosto de 69, depois se apresentaram em outras cidades de outros países.
Em setembro de 1970, Boal retomou uma ideia que havia tido anos atras com uma atriz, amiga, espetáculos diários com jornais da manhã, estrearam em um teatrinho pequeno. Teatro-jornal, começaram a formar grupos, mais de 30, teatro instantâneo. O objetivo era propagar as técnicas para que todos pudessem fazer teatro.
2-Engenheiro Químico
Em 1948, Boal ingressa na Universidade do Brasil (que em 1965 passou a se chamar Universidade Federal do Rio de Janeiro) na Escola Nacional de Química, cursando Engenharia Química,esse curso forma pessoas responsáveis por projetar, construir e operar plantas químicas industriais combinando química, biologia, física, computação e matemática. A escolha do curso se deu por um desejo de orgulhar seu pai, que queria seus filhos se formando doutores e para acompanhar uma namorada, ou quase namorada, que gostava de química e queria seguir a carreira, Boal queria teatro, mas começou a sonhar em usar jaleco branco ao lado de Renata, porém o sonho acabou quando Boal passou no vestibular e ela não, diz que em momento algum pensou em desistir, seu pai valia o esforço. Logo no primeiro mês se candidatou como diretor no Departamento Cultural Escolar, asssumiu o cargo. Seu papel era organizar conferências, exposições, debates, isso o manteve em contato com o teatro, tendo livre acesso a inúmeros espetáculos, isso lhe proporcionou além de experiência e carga cultural, ligou ele a muitos nomes importantes. Convidou Nelson Rodrigues, um de seus escritores favoritos, para fazer uma conferência, mas poucas pessoas foram, mesmo com o "fracasso" nesse evento, Boal se tornou amigo de Nelson, dava suas peças para ele ler e comentar e assim também fez Nelson uma vez. Foi apresentado a Sábato Magaldi, figura fundamental para seu trabalho como diretor, assistiu a aulas sobre Stanislavsky no Serviço Nacional de Teatro. Junto com seus amigos decidiu que fundaria um grupo de teatro, Teatro Artístico do Rio de Janeiro, começaram uma busca por elenco, teatro e tudo mais, durante essa busca Augusto colocou em sua mente a função social do teatro, mas percebeu que antes de educar o público era necessário, atrai-lo.
1952, seu ultimo ano na universidade, sua colação foi no Teatro Municipal, lembra que essa foi a primeira vez que o aplaudiram em um teatro. Viu-se com 21 anos Químico Industrial, recebendo de presente do seu pai, um ano de especialização no exterior.
4-Arena
De volta ao Brasil, Augusto precisava de um emprego, seu irmão havia lhe conseguido um emprego na Petrobras, mas ele recusou, foi procurou emprego e com a ajuda de Nelson Rodrigues, tornou-se tradutor de uma revista de crimes, onde não só traduzia mas mudava as histórias como de costume. Sábato Magaldi, indica seu nome para ser diretor do Arena em São Paulo. Arena foi fundada em 1953 por José Renato com o objetivo de apresentar para São Paulo, um teatro que contivesse, alta produção, comprometimento com a dramaturgia e interpretação em um espaço reduzido e sem grande recuso financeiro. Aceito dor José, Augusto passa a trabalhar em um espaço que jamais havia visto antes, um espaço de cinco metros quadrados por cinco, onde os atores com olho no olho na platéia seriam valorizados ao extremo. O primeiro espetáculo a ser dirigido chamava-se Ratos e homens de John Steinbeck, um espetáculo que teria um elenco novo, com alguns nomes que o acompanharam por mais de dez anos, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Dirce e Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Riva Nimitz, Vera Gertel, Lima Duarte, entre outros. Tendo como referência Stanislavsky e suas anotações do Actor's Studio, todos os dias estudavam um capitulo de Stanislavsky e analisavam o texto. No teatro Arena, os atores tinham que ser expressivos em todas as direções , " trabalhar na arena é extenuante, mas gratificante. Inter-relação ou morte". Criou espetáculos simples, onde os movimentos se reduziam aos obrigatórios, cada gesto tinha um sentido. A peça estreou em setembro de 1956, Ratos e Homens lotava, nesse espetáculo eles institucionalizaram o Laboratório de Interpretação. O elenco da peça pediu que Boal desse um curso aberto de dramaturgia para passar ensinamentos de Gassner, tomou gosto a ensinar, em 1957 oganizam outro curso de dramaturgia aberto, em 1958 estreiam Eles não usam black-tie e fundaram o Seminário de Dramaturgia, que era somente para convidados, reuniram doze futuros atores e se encontravam aos sábados de manhã, analisavam peças com no mínimo dois relatores, um sempre era Boal, os relatores deviam prestar informações nos debates, parte do Seminário tinha participação partidária, normal que os debates fossem politizados, levaram convidados para dar aulas de certos temas. Em 1959, Alfredo Mesquita convida Augusto Boal para inaugurar Dramaturgia na Escola de Arte Dramática. Boal permaneceu no teatro Arena por quase 15 anos, dirigiu 31 peças (.https://espect-ator.webnode.com/l/pecas-de-boal-no-teatro-arena/).
Durante a peça " O Melhor Juiz, o Rei" de Lope de Vega em 1963, o pai de Boal, que estava doente desde os 64 anos, morre no dia que completou 71.
6- Exílio
Apresentariam no Festival de Nancy, no Arenão trabalhavam Teatro-jornal, no Areninha reensaiavam "Bolívar", depois de um ensaio na Amaral Gurgel, três homens armados saíram de um fusca, Augusto Boal foi preso. Invadiram sua casa, foi torturado. Graças a seu irmão militar, saiu nos jornais Boal havia sido sequestrado e não preso, cartas do exterior chegavam com assinaturas de nomes importantes para pressionar os torturadores, para que liberassem Boal, teriam que provar que sua prisão era justa, mudaram declarações no texto do depoimento e ele assinou sem ler, foi condenado e passou dois meses no Presídio Tiradentes. Celas políticas organizadas, podiam receber visitas, ler livros, ver TV (preto e branco), duas vezes na semana banho de sol, todos tinham que trabalhar. Durante sua estada na prisão o Arena embarcou para Nancy, no seu julgamento, antes da sentença final, o juiz lhe concedeu o direito de viajar para Nancy, para melhorar a imagem da ditadura. Voltou meses depois, transferido para uma prisão maior, o Teatro do Oprimido surgiu na prisão, os presos eram seus próprios educadores, posições sociais dentro e fora da cadeia foram refletidos, quem cumpre tarefa de ensinar e aprender através de atos, é o teatro.
Boal, foi convidado para encenar na New York University, foi liberado, morou por três meses perto da NYU na Second Ave. A espionagem sabia de tudo que ele fazia, dirigiu "Torquemada" na NYU, "A Feira Latino-Americana de Opinião" na Saint Clement's, diplomatas espionando. Escreveu "Milagre no Brasil". Levou os alunos para que passassem 24 horas dentro da prisão, para que imaginassem a angústia prisioneira.Com o espetáculo ganharam o prêmio de melhor espetáculo off-Broadway. "O Tio" na Argentina, também de grande sucesso, Boal montou uma cena que abordava uma lei humanista, que dizia que qualquer um poderia comer em qualquer restaurante e não pagar se houvesse fome e não dinheiro, mas ele poderia correr o risco de ser preso, então surge do teatro invisível, atores entrariam em uma cena cotidiana, espontânea, essa foi a segunda forma do teatro do oprimido que surgiu, a primeira sendo teatro-jornal. Outras duas formas o Teatro do Oprimido surgiram no Peru: teatro-fórum e teatro-imagem; Teatro-fórum nasceu quando Boal não entendeu uma espectadora que estava opinando sobre algo que os atores deveriam improvisar, então ele pediu que ela fosse ao palco atuar seu pensamento, ela entrou em cena assumindo o personagem, nesse dia em diante Boal diz que seu teatro seria um teatro de perguntas. Teatro- imagem nasceu porque os peruanos falam 47 línguas diferentes, e para entende-los Boal pedia que fizessem imagens. No Peru Boal escreveu "Técnicas latino-americanas de teatro popular", "Categorias do teatro popular" e seu livro " Teatro do Oprimido" impresso pela primeira vez em setembro de 73. Começa um período de terror na Argentina, Boal recebe um convite do governo português para morar e trabalhar la, seu passaporte estava vencido e o consulado brasileiro não liberava o seu passaporte, demoraram anos, nos três anos de espera Augusto escreveu nove livros e teve um filho com Cecília, Julián Boal. Lisboa, Portugal, 1976, enquanto Boal escrevia "Murro em ponta de faca", foragidos se suicidavam, eram tempos difíceis e solitários. O governo português demorava a lhe dar o contrato enquanto não assumia, foi diretor artístico da Barraca. Passou dois anos em Portugal e pouco fez com relação ao Teatro- fórum, após esse período recebeu convite de Émile Copfermann para publicar Théâtre de I'Opprimé, e de Bernard Dort para ocupar uma cadeira na Sorbonne-Nouvelle, em 1978 foi viver em Paris, lá ele desenvolveu e ensinou técnicas do teatro do oprimido. Veio a anistia, a mãe de Boal morreu 15 dias antes de seu retorno, em 86.
7-Retorno
O primeiro espetáculo de Boal depois do exílio foi "O corsário do rei" peça simples, sua volta porém tinha que ser grandiosa, a produção investia, a crítica desancou. Em 1985 dirigiu Fernanda Montenegro em "Fedra", um ano e meio correram o Brasil. Depois de outros, ficou onze anos sem dirigir no Rio, além das curtas peças do Centro do Teatro do Oprimido. Em 92 Boal se torna vereador do Rio de Janeiro pelo PT, fez projetos e transformou ideias do TO em projetos de leis, teatro legislativo transformava o desejo da população em lei. Em 2008 Boal foi nomeado embaixador mundial do teatro pela UNESCO e indicado ao prêmio Nobel da paz. Sofrendo de leucemia, falece aos 78 anos, de insuficiência respiratória, no Hospital Samaritano, no bairro do Botafogo, Rio de Janeiro.
Esse texto foi baseado em:
- BOAL, A. Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas, Editora Record, 2000
- BABBAGE, F. Augusto Boal. Routledge,
2004.